Venezuelanos vasculham lixão em busca de comida e coisas para revender na fronteira do Brasil

Venezuelano procura lixo que pode ser reaproveitado no aterro de Pacaraima, cidade fronteiriça — Foto: Emily Costa/G1 RR

Sem emprego, refugiados buscam comida, papelões e metal para vender em Pacaraima.

Em uma tentativa de sobreviver após fugir da crise em seu país, três homens venezuelanos encontraram no lixão da cidade fronteiriça de Pacaraima sua única fonte de subsistência.

Enfiados entre os dejetos da cidade, ficam da manhã à tarde em busca daquilo que possam aproveitar. Recolhem metais, papelões e comida.

Dizem que não conseguem nenhum outro trabalho porque a cidade está cheia de venezuelanos carentes enquanto outros cometem crimes e “por um todos pagam”.

“Buscamos tudo o que possamos vender para conseguir algum dinheiro. Se achamos alimentos que não estão podres, comemos”, descreve Miguel Arteaga, 48, que há três semanas vive em Pacaraima. “Moramos os três de favor em uma casa”.

Ele conta que duas vezes ao dia, normalmente de manhã e à tarde, um caminhão leva mais lixo para o aterro. Nesses momentos costuma haver correria.

“Aparecem muitos venezuelanos jovens, com 19, 20 anos. Correm quando o caminhão chega”, relata um de seus companheiros, Gustavo Santana, 48. “O governo da Venezuela não serve. Nos fez chegar a este ponto”.

A Venezuela vive dias de tensão com manifestações e protestos liderados pelo presidente autoproclamado, Juan Guaidó, que tenta derrubar Nicolás Maduro do poder. O chavista, no entanto, afirma que os oposicionistas “fracassarão”.

Em meio ao colapso que aumenta a disputa pelo poder, cresce número de venezuelanos que entram no Brasil em busca de ajuda. Só nessa terça (30), 848 imigrantes passaram pelo posto de triagem, movimento “atípico” da média de 450 registrados pela operação Acolhida, que controla o fluxo migratório.

Segundo a ONU, 3,4 milhões de venezuelanos saíram do país desde 2014 quando se agravou a grave crise política e econômica no país. Cerca de 96 mil buscaram refúgio no Brasil, mas no estado fronteiriço de Roraima, que concentra maior quantidade, só 9% conseguem inserção no mercado formal, conforme levantamento da Organização Internacional para Migrações (OIM).

Com as pernas metidas no lixo, o terceiro revirava entre restos. Encontra um curto pedaço de arame e o guarda. Mais jovem entre os três, é o que tem mais experiência ali. Está há três meses vivendo do lixo.

“Havia uma grávida, mas ela já pariu e se foi daqui”, conta Fresby Artiaga, de 19 anos. “Pagam 10 centavos pelo quilo de papelão e o de lata custa R$ 3. Dividindo tudo o que conseguimos são entre R$ 15 e R$ 20 ao dia para cada um. Só dá para comer”.

Não são os únicos. Um homem e quatro garotos caminham entre os montes de lixo. Um dos meninos carrega um saco nas costas. São índios warao, etnia que também migra em massa ao Brasil.

“De repente consigo um dinheiro para passagens e me vou daqui”, completou Gustavo, que não esconde a vontade de sair dali. “Quero ir mais ao Sul do Brasil, encontrar um trabalho. Recomeçar”.

Créditos Emily Costa